quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

#Amor

Há quem faça do amor um objecto, um lugar.
Uma espécie de vale tudo,
Onde vale, de facto, tudo excepto amar!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Poema de toalha de papel



Hesitante
foste ao teu bolso da frente.
Lado esquerdo.
Retiraste uma nota, na indecisão do preço.
Afinal foram apenas trocos
e recuaste na tua intenção.
Trocas de mão e de bolso,
na viagem dos dedos pelo cabelo.
Olhaste para trás,
e curiosa franziste as sobrancelhas.
Ripostei o olhar
e apercebeste-te que há conhecimento difícil de adquirir.

Uma nota autobiográfica

Nasci em 1976, comecei a aprender a escrever em 1982, entrei na faculdade em 1994.
Cresci em Lisboa perto de uma amoreira que dava - a mim e a quem mais quisesse - amoras que recordo agora como demasiado doces.

Lembro-me de encher os bolsos com essas amoras peganhentas, da mesma forma que me lembro de entrar em casa de um vizinho que tinha uma foto de Marx alinhada com o crucifixo na parede ao fundo da sala.

Mudei-me para o Porto meses depois de Deus marcar um golo através da mão de Maradona. Nunca mais comi amoras directamente de uma amoreira, nunca mais vi Marx e Cristo na mesma sala.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O quanto gosto de por entre uma dança e outra, enquanto danço ao som do meu copo, ir soltando frases insinuantes. Assim, bem perto do ouvido, para que não haja outra interpretação, para que não se misture com a música que vibra nas colunas, para que não possas confundir nenhuma palavra das que vou pronunciando em jeito de confissão obscura junto da tua orelha. Hoje, de tão perto, consegui decifrar todos os elementos do teu perfume que parece perpetuar-se na pele do teu pescoço e da tua orelha.
Aproximo-me do bar na esperança de que te deixes ficar ali, de que peças também uma bebida e me acompanhes. Enquanto peço mais gelo, penso no que estarás a pensar. Cresce em mim uma vontade de poder provar uma bebida pela tua boca ou o resto do que nela ficar. Começo já a pensar no sabor fresco das bebidas com gelo a misturar-se com o quente do álcool… Começo a pensar que me sinto como uma bebida e que quero que esgotes uma garrafa comigo.
Quando me volto já não estás. Mas afinal, não fui suficientemente clara?
Largo o copo.
Voo pela pista.
Apanho-te à porta.
Estás nervoso, sinto-o! Sinto-me a fera a encurralar a presa.
Dissimulo a minha ansiedade com o cigarro que encosto à boca. Bendito cigarro!
Peço-te lume. E, sabendo que nunca fumas, diverte-me perguntar se me dás lume. Diverte-me fazê-lo nesse tom que tu sabes, como quem pede fogo, como quem espera que incendeies tudo.
Apesar da tua insistência em te afastares, meto-me contigo no táxi numa espécie de “agora ou nunca”. E só eu sei o que me custa toda esta exposição, toda esta vontade óbvia estampada no olhar e na minha acção.
O táxi arranca e olho pela janela enquanto toda a paisagem corre lá fora, consigo ver-te, do outro lado do banco, reflectido no vidro.
Olho-te nos olhos e penso no que farei daqui a cinco minutos… se saio e te deixo dinheiro para a tua viagem ou se espero que pagues ao motorista e fiques apeado à minha porta.
O coração vai saltar-me pela boca, caramba!
tempo
tic toc
o teu olhar impreciso
e eu nervoso
inclinas-te e partilhas um segredo ao ouvido
sentir os teus lábios encostados à minha orelha a segredar
o timbre a vibrar dentro de mim
não respondo surpreso
miro-te e tu retornada ao teu canto sorris e pedes mais gelo para o teu irlandês de malte
hesito
divertes-te a ver-me nesta indecisão
porra, porque não fumo? agora ficava bem sacar de um cigarro
o copo vazio
e eu sem nada que fazer com os dedos e tu sempre à espera de resposta
viro-me para trás, finjo conhecer alguém e saio na esperança que não me sigas.
não porque não te queira, mas porque não sei o que te dizer.
cá fora respiro ofegante
como se tivesse corrido a maratona
telemóvel
sistema android
app
táxi
vou para casa
"tens lumes?"
és tu outra vez
eu não fumo e perguntas-me isso?
122
chegou o carro

"posso ir contigo? deixas-me em casa."
tenho 10 euros e não chega para mais do que uma viagem
"gastei quase tudo lá dentro, não sei se tenho que chegue"
abres a porta e sentas-te no banco de trás
dizes ao condutor a tua morada
a porta ainda aberta
"não vens?"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Palavras Desmaiadas

Isto não é uma carta de amor,
Não te iludas meu querido amigo.
Se bem vês,
As palavras estão desmaiadas.
E nesta folha de fraca tez,
O que, nas breves linhas, partilho contigo,
É, das horas bem passadas,
O calor e o remorso da ilusão,
Que, neste jeito imprudente, te fiz viver.
Oh céus, uma insensatez!
Porém, com muito carinho,
E sem te ofender,
Digo-te que não é amor,
Mas amizade poderá ser!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Insistentemente

O carteiro tocou insistentemente à campainha até que fosse à porta.
Depois de meses em que também eu, insistentemente, esperei que ele passasse na rua para lhe perguntar:
- E hoje, não tem nada para mim?
Todos os dias, todos os malditos dias…
Pensou que, finalmente, me trazia o que tanto esperava, o que desesperadamente procurava na caixa por entre as contas para pagar e os folhetos publicitários do supermercado.
E nem reparou que há muitos dias que deixei de lho perguntar, que nunca mais esperei que ele passasse. E que cheguei mesmo a evitar que ele me visse, para que não me lançasse aquele encolher de ombros ou pregasse os olhos no chão para que não tivesse que me dizer que não trazia nada.
Rasgou um sorriso e disse:
- Menina, trago-lhe uma carta registada. Correio internacional. Demorou mas cá chegou, está a ver! O que tem que vir, sempre vem algum dia!
Vi-me encostada à porta com aquele envelope na mão. Aquela letra que conhecia tão bem a espelhar o teu nome no envelope que de tão imaculado, ninguém diria ter vindo do outro lado do mundo. A cada segundo, sentia o coração bater como se fosse explodir.
Todos os dias, todos os malditos dias…
Esperei anos, caramba, anos!
Mas agora que me habituei ao silêncio da tua ausência. Agora que a cama já não me sabe a vazio. Agora não me apetece ler-te.
O que virias dizer, que te lembraste de mim?
Quando bateste a porta o que te pedi não foi que te lembrasses de mim um dia, pedi-te que não me esquecesses em nenhum!
 Rasguei aquela carta com a mesma fúria com que sempre te amei.
E desde esse dia, todos os dias, todos os malditos dias…
O carteiro toca, insistentemente, para me entregar um daqueles envelopes imaculados, bem escritos, um daqueles com o teu nome, um daqueles que junto aos folhetos publicitários do supermercado e deito no lixo.
Todos os dias, todos os malditos dias…

Insistentemente.